17/05/2013
Kaori Shoji
Em Tóquio
Fonte: UOL
No Ocidente, um julgamento um tanto quanto condescendente sobre as
mulheres japonesas há tempos é o de que elas são muito submissas e
parecidas com bonecas. Durante quase uma década, a mídia japonesa
incentivou as mulheres a lutarem contra essa imagem, endurecendo e se
emancipando.
No ano passado, entretanto, esse tipo de conversa recebeu cada vez
menos atenção entre algumas jovens que na verdade querem se parecer com
bonecas.
Elas estão divididas em dois gêneros diferentes: as cada vez mais
populares “Mori”, ou garotas da floresta, e as “Ageha”, ou
garotas-borboleta. As garotas da floresta usam camadas de vestidos finos
de algodão, meias grossas e botas, maquiagem despretensiosa e bolsas de
tecido, com a intenção de parecer com uma boneca feita a mão de algum
cenário romântico da Floresta Negra.
As garotas da floresta surgiram a princípio sem chamar muita atenção
na cena cultural pop de Tóquio na última primavera, embora de primeira
fosse difícil distingui-las das garotas eco, vestidas de forma parecida.
Mas à medida que os meses passaram as diferenças se tornaram claras. As
garotas da floresta querem ser discretas e suprimir toda a sexualidade,
enquanto as garotas eco são naturais, esportistas, apoiam políticas
ambientais consistentes e têm uma dose saudável de sensualidade.
Midori Yokokawa, editora da revista de moda “Forest Girl”, que foi
lançada em outubro para acompanhar esse novo fenômeno, diz: “As garotas
da floresta são cautelosas em relação a todos os tipos de agressividade
ou autoconfiança. Elas são apenas muito frágeis, ou gostariam de ser
dessa forma.
“Elas querem viver o suficiente para existir, preferencialmente num nível metafísico.”
As Ageha, ou garotas-borboleta, começaram a aparecer em 2008 e
mostram uma desconfiança similar do mundo real. Seu objetivo é parecer o
máximo possível com as bonecas infláveis que os homens compram online,
mas com uma maquiagem extravagante.
Naoko Kamiyuo, 19, que vive para comprar cosméticos, roupas e
acessórios de cabelo, diz: “Não sou muito bonita, mas adoro me montar.
Quero mudar a mim mesma, ser irreconhecível. Quem quer passar pela vida
sendo apenas ela mesma?”
Os pais dela primeiro imploraram para que ela “voltasse ao normal”,
mas agora eles a deixam em paz para seguir seus sonhos de boneca Barbie.
“Fico entediada quando não estou montada”, diz Naoko. Ela acorda às 5
da manhã e passa pelo menos duas horas colocando cílios postiços,
extensões de cabelo, camadas de base e outros complicados procedimentos
de maquiagem.
Como a maioria das mulheres japonesas, as imitadoras de boneca não recorrem à cirurgia plástica.
De acordo com a jornalista de cosméticos e beleza Yuko Ito: “A mulher
japonesa tem um certo medo de entrar na faca. Elas acham que é um
pecado contra seus pais. É por isso que elas preferem optar por
cosméticos e roupas dramáticas. Esta também é a razão por trás da
impressionante variedade de cosméticos disponível neste país”.
Ito tem razão. A gigante dos cosméticos Kanebo lançou um rímel de
alta tecnologia que na verdade faz com que os cílios fiquem mais longos
(mesmo que apenas por algumas horas), e a Shiseido há muito vende
produtos para clarear a pele das japonesas o máximo possível, como
marfim.
“A mulher japonesa não está interessada em qualquer produto de
maquiagem”, diz Ito. “Elas querem melhorar a sua aparência e ao mesmo
tempo tratar e clarear sua pele, alongar os cílios, encher os lábios,
etc.”
Mas não são só os cosméticos que produzem a aparência. As roupas também importam.
“Gosto quando tudo em mim parece artificial”, diz Kiyomi, 23, que
gosta de comprar suas roupas na Jesus Diamante, uma boutique
especializada no visual Ageha.
Kiyomi diz que ela nunca sai de casa a menos que esteja usando
tamancos decorados com botões de rosas, seu cabelo tingido de loiro
penteado em cachos rococó ao redor do rosto, e os seios aumentados por
espessos enchimentos de gel dentro do sutiã.
Apesar de tudo isso, entretanto, Kiyomi não tem um namorado e passa
suas noites livres trocando informações de moda com um círculo de amigas
Ageha.
“Adoro sair com rapazes, mas raramente tenho uma oportunidade”,
suspira. “O triste em ser uma Ageha é que a maioria dos homens preferem
mulheres com aparência mais natural e nós não gostamos nada disso.”
Este parece ser o lado ruim das garotas que querem ser bonecas:
poucos homens de fato estão dispostos a bater em suas portas. Tanto as
Moris quanto as Agehas continuam sendo minoria, “cults” demais para os
homens leigos entenderem, e tecnicamente difíceis de acompanhar.
Consequentemente, elas têm em torno de si um ar de sociedade secreta.
Na Jesus Diamante, onde a lingerie rendada é exposta sobre uma cama
cor-de-rosa, tirar foto de qualquer coisa, incluindo da equipe de
vendedoras vestidas de forma extravagante, é um tabu.
“Faz sentido”, diz Kiyomi. “As bonecas não deveriam precisar falar, muito menos explicar qualquer coisa.”
Tradução: Eloise De Vylder
8:48 PM |
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